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Cruz das Almas
– Um conto sobre voltar para casa.
Texto e fotos: Tarek Mourad.

I

A sensação é realmente a de voltar para casa. Voltar depois de muito tempo distante. Voltar a rever pessoas que eu estimo e tenho muito carinho. Retornar para um lugar que eu nunca achei que voltaria. Eu tenho uma certa intimidade com a cidade. Eu me sinto bem aqui. O ritmo é diferente, muito longe do que estamos acostumados em São Paulo, minha cidade natal.

Eu estava com saudades desta cidade. Queria visitar velhos amigos. Queria comer no Sky Burger. Queria comer milho assado na praça (o milho aqui é delicioso).

Cruz das Almas faz parte do Reconcavo Bahiano. Éssa região esta entre a Mata atlântica e a caatinga. Assim, a vegetação nativa aqui é alta como a mata atlântica mas as arvores tem menos folhagens e a concentração de folhagem esta na copa das arvores em forma de arbustos. No meio desta mata fina, encontrava-se o tabaco que acabou sendo chamado de tabaco mata fina. Os charutos de qualidade superior são feitos com este tipo de tabaco. Outros tabacos, como o da região de arapiraca tambem são usados, mas em charutos de qualidade inferior.

Não poderia deixar de falar do hotel em que estou hospedado. É o Flamboyant Inn Hotel. É o melhor da região. Simples, limpo e com uma cama confortavel, é mais do que suficiente quando você esta em Cruz.

Alem de comer em casas de conhecidos aqui em Cruz, minhas únicas referições forma no Sky Burger e no restaurante O Point. Ambos servem sanduiches diversos alem dos pratos regionais. Aparentemente, aqui tudo vai bem com o molho “lambão”. Esse molho é uma espécie de vinagrette que alem do tomate e da cebola, usa pimenta malagueta macerada e coentro. Aqui se come muito piexe. Apesar da variedade de peixes de agua doce, a preferencia são os pescados de agua salgada.

Feijoada, junto com carne de porco preparada de varias maneiras tambem faz parte do cotidiano em Cruz das Almas. Galinha de Angola tambem é relativamente popular nesta região. Ela é preparada em diversas receitas sendo a substituva do frango. O pato ja não é tão bem vindo.


Manhã no centro de Cruz das Almas.
II

Cruz é cidade de feira e aqui feira tem dia certo e em dia de feira, não se faz mais nada. Na feira se vende tudo. De bicicletas a artesanato, a alimentos, a animais vivos (que logo viram feijoada, bode frito e outras iguarias). Os tomates são saborosos e cheios se suco. As batatas pequenas e delicadas. As cebolas parecem as gostosas echalotas em sabor e em forma. Algumas frutas como as maçãs vem do Parana. Cupuaçu vem do norte. Eu nunca tinha visto uma cupuaçu ainda na forma de fruta, ao vivo. O menino que vendia a fruta na feira nunca viu reação de espanto, surpresa e alegria. Eu, quando me dei conta, estava lidando com a fruta como se fosse um ovo Fabergé delicado e caro. Comprei uma. Chegando em casa vai virar algum doce. Ainda não decidi qual.

A estrela da feira, no entanto, é a banana. Quem come banana em Cruz, não come mais em lugar algum. A banana vem do meio do mato. É de uma doçura incrivel. Um deleito. Por 50 centavos, você compra 3 cachos da banana prata e por 2 Reais você compra um cacho da banana da terra. Depois de rodar a feira, provando bananas dos diferentes vendedores, comprei um cacho de banana prata e um cacho de banana da terra para trazer de volta para São Paulo. Essas ja tem destino garantido: soufflé, como aprendi com Raphael do restaurante Marcel e bolo de banana, como o inigualavel do Hotel Fairmont em San Francisco (na proxima edição publico as receitas).

É bem comum aqui o amendoim cozido. É relativamente facil de preparar. Basta você comprar o amendoim com casca (não estou falando da pele, estou falando da casca mesmo), lavar bem com agua corrente e colocar numa panela de pressão com agua e sal. Deixe cozinhar por 15 minutos e escorra. Quando você abre a vagem do amendoim, ele ainda esta contido dentro da pele mas o grão virou um delicioso pure.


Charutos bem enrolados pronto para a sala de envelhecimento. A pedido do fabricante (que permanece anônimo), algumas das bitolas não são mostradas nesta foto.
III

Se as opções gastronomicas são extremamente limitadas em Cruz das Almas, infelizmente, igualmente limitadas são os charutos de qualidade desta região. Cruz das Almas junto com outras cidades vizinhas aqui no reconcavo bahiano, ja foram um dos maiores produtores de charutos do mundo. Hoje restaram apenas algumas fabricas e muito pouco charuto de qualidade superior.

Com uma velha amiga que rodava a cidade comigo, acabei por visitar um fabricante de charutos. Na realidade, ele ainda não é fabricante pois a linha de fabricação ainda não esta produzindo.

Ainda esta numa fase de deselvolvimento de bitólas e blends. Pedi para dar uma olhada no tabaco disponivel. Durante todo o tempo que fabriquei charutos, nunca vi tabaco mata fina de tamanha qualidade. Os charutos que eu fabricava usavam uma boa seleção de tabaco mas nada nem perto do que estava na minha frente. Nunca imaginei que existia mata fina daquele gabarito. Capas, as mais sedosas que se pode produzir. Um tabaco rico em aroma e com evidencias de uma preparação muito cuidadosa. Notas de amendoas tostadas, casca de pão, madeira escura e couro. Tabaco de tanta qualidade que faz um apreciador se emocionar.

Entrei na sala de envelhecimento e fiquei surpreso com as amostras disponiveis. Os mais diversos blends nas minha bitolas prediletas. Seria desleal da minha parte se revelasse tudo o que vi, mas digamos que foi o suficiente para me impressionar.

Na sala de produção, as charuteiras, todas criadas no meio do tabaco, relembravam os charutos de antigamente com algumas amostras que elas produziam. Depois de provar tantos charutos deliciosos, ficou dificil dizer qual ficou melhor. Fiquei muito impressionado com um charuto que se mostou forte e rico em aromas de café tostado e couro. Alem de uma queima perfeita e bom volume de fumaça, esse charuto apresenta uma evolução muito bem marcada. Um charuto tão bem construido e de um blend feito com tanto cuidado, que uma fumante pego de surpresa não consegueria dar a origem este belissimo charuto.

Também visitei meu amigo Genádio Borges. Genádio é produtor de fumo e seu método de plantio é único. Extremamente simpático, rodei suas plantações com ele fumando um San Francisco, charuto que ele produz e nomeou em homenagem ao seu pai, Sr. Francisco. Genádio produz tabaco da espécie mata fina e cubanito, um cruzamento do mata fina com o piloto cubano.

Me despedindo, fico contente que alguem esteja se dedicando a fabricar um produto de extrema qualidade e mesmo antes de partir, ja tenho um bom motivo para voltar em breve para cá. Tenho certeza que vou ter o privilégio de provar o blend final desses charutos assim que isso tudo for definido. Assim, em muito breve vou voltar a rever os meus amigos e este lugar que tanto me encanta.



A plantação de mata fina.


Mãos cuidadosas dão o toque final no charuto.


Genádio posa ao lado do seu cubanito.


O fumo, no processo de maturação, repousa em pilhas como esta.






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